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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

GRAÇA ABUNDANTE


Reflexões finais da América Latina
"Graça, cruz e esperança" é o tema de um estudo comunitário, de amplitude continental, realizado na América Latina. O estudo constitui um desafio para que reflitamos sobre a graça em meio a um mundo marcado pela "desgraça". Há tanta pobreza, e tanta injustiça na terra... E as realidades da dor, do sofrimento, do desespero, que tanto afetam a vida do nosso povo, estão bem presentes entre nós. É possível falar da graça de Deus quando estamos sob o peso de tanta angústia?
Tendo ouvido as nossas igrejas e tomado o pulso do nosso continente, nós, teólogos e especialistas da Bíblia, de diferentes denominações e correntes teológicas na América Latina, chegamos à conclusão de que nosso povo está em busca de uma compreensão mais profunda da graça de Deus, e está esperando a manifestação da bondade e misericórdia de Deus, que como pai e mãe acolhe todos os seus filhos e os convida para uma vida plena de confiança e esperança.
Não são muitas as palavras que sejam tão centrais na Bíblia como a palavra "graça". A exemplo de Santo Agostinho e dos reformadores do século 16, o teólogo suíço Karl Barth enfatizou a importante relação entre graça e gratidão (charis/eucharistia) e frisou que a graça deve ser o princípio fundamental da teologia, e que a gratidão deve ser a força propulsora da nossa ética. O Catecismo de Heidelberg afirma que devemos conhecer três verdades: o quão grande é o nosso pecado e miséria, o quão grande é a graça libertadora de Deus, e o quão agradecidos devemos ser pela graça de Deus.
Tudo, desde a criação (Gênesis 1.31), passando pela escolha de uma nação destinada a ser uma bênção para todas as nações, e culminando na encarnação do Filho de Deus (João 1.14), tudo isso constitui clara evidência da graça, generosidade e favor de Deus para com a criação inteira (Salmo 104).
A Bíblia não ignora a imensidão do pecado humano; e a cruz, que comprova essa tragédia, não deixa margem a qualquer falso otimismo a respeito. Essa sombria realidade, que levou à formação de todo um sistema sacerdotal e sacrificial, é confrontada pela gratuidade da ação de Deus. Nas palavras do apóstolo Paulo, "...onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Romanos 5.20).
No início do seu ministério, Jesus se alinhou com a tradição profética do anúncio do jubileu libertador e do ano aceitável do Senhor (Lucas 4.18-21). Perdão, vida abundante, novo começo da história humana, tudo isso esteve sempre presente na vida e ministério de Jesus. Seu amor pelos pobres, enfermos, crianças, pecadores, prostitutas e abandonados era parte integrante da proclamação que ele fez em Nazaré. A gratuita graça divina de uma nova vida em Cristo é a resposta à história de rebeldia humana contra Deus. Jesus não exige mérito nas pessoas que ele chama; pelo contrário, é aos "cansados e sobrecarregados" que ele promete repouso e bem-estar. Sua própria morte na cruz, manifestação máxima do pecado – humano, individual e estrutural –, é transformada pela graça de Deus em confirmação da sua missão salvífica, mediante o sacrifício supremo.
O apóstolo Paulo descobriu o significado da graça gratuita de Deus durante a experiência que teve no caminho de Damasco. Ele sentiu-se aceito, apesar de não ter mérito algum. Na epístola a Filemon, em que se trata de um escravo fugitivo que é reenviado ao seu dono, este é exortado a acolher o escravo como um irmão. O relacionamento proprietário/propriedade não existe mais; tampouco, obrigação legal ou forçada. Prevalece agora a aceitação da irmandade, da comunidade, da nova realidade inaugurada por Deus em Jesus Cristo.
No mundo de hoje, há um sentimento generalizado de que tudo pode ser reduzido a mercadoria, que tudo tem um preço comercial, e que nada existe que seja de graça, nem mesmo um almoço amigo. A cultura dominante, da qual, de certo modo, somos todos, prisioneiros, baseia-se numa única diferenciação: produtores e consumidores. Importa, pois, voltar à idéia de Paulo de que, no relacionamento de Deus com as nações, tudo é gratuito; e que, no relacionamento de Deus com a criação, tudo é amor.
A Comissão Teológica Latino-Americana (CTL), sob os auspícios do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), formulou recentemente os seguintes pontos concernentes ao tópico "Graça, cruz e esperança":

A graça e o amor de Deus, gratuitamente oferecidos, são os meios que conduzem à vida cristã. A compreensão da disponibilidade incondicional de Deus, que nos aceita tal como somos, afeta nossa relação com a cultura em que nos encontramos e com o eco-sistema inteiro: nada está fora dos desígnios do amor de Deus. E nada pode estar fora do interesse daquelas pessoas que se sentem integradas nesse desígnio. Porque somos libertados, libertaremos outras pessoas; porque somos amados, amaremos outras pessoas.


A experiência da graça traz-nos descanso e paz em Deus. A vocação da igreja é celebrar a bondade de Deus. Essa a razão pela qual o sentimento de celebração é parte de nossa vida cotidiana. Celebração é expressão do imenso júbilo daquelas pessoas que sabem que, em toda e qualquer circunstância, é Deus que tem a última palavra. O afeto e o apoio fraternal da comunidade de fé são sinais da dinâmica do amor de Deus, que nos aceita e nos reabilita. Celebração e louvor, portanto, exprimem nosso reconhecimento de que o amor de Deus nos é dado gratuitamente. Daí porque as igrejas, em vez de serem comunidades de normas e disciplinas, são comunidades de celebração, alegria, júbilo e esperança.

Em nossa região latino-americana, como também no mundo inteiro, o sistema econômico que marginaliza grandes setores da sociedade é anti-graça. Enfrentamos um mercado desumanizante, sistemas políticos desacreditados, um sistema jurídico que favorece os poderosos, corrupção sistemática, perda de valores e conseqüente desmantelamento da família, da comunidade e da sociedade... Mas "Deus pode fazer-nos abundar em toda graça" (2 Coríntios 9.8). O dom da graça de Deus significa que a esperança de vida nos advém através da cruz. No contexto latino-americano, graça significa enfrentar as realidades da vida, a cruz, com esperança. A graça é o dom de Deus para enfrentarmos as condições de desesperança. Nossas igrejas são comunidades do Espírito, e é nelas que aprendemos a viver a graça de Deus em Cristo. Nem sempre é fácil agir segundo a vontade de Deus, ou viver conforme os valores do Reino. Parece que a graça, hoje, tende a ser reduzida a dois extremos: ora ela é vivida em forma de emoções extravagantes, ora é expressa em termos de catecismos absolutos e ortodoxias rígidas. Nenhum desses dois extremos é fiel ao Espírito do evangelho. Na sociedade moderna, cada mulher, cada homem, deve lutar para ser "alguém", para ter valor. Essa sociedade contraria a lógica da graça, e reduz o reconhecimento da dignidade humana a um critério seletivo e excludente.

É importante vincular graça e dignidade humana. Ambas se conectam com Deus e com o ser humano. Dignidade humana e graça divina são inseparáveis, porque não é possível viver a experiência da graça divina sem a experiência da dignidade humana. Onde não há dignidade humana, há ausência da graça divina. E onde há dignidade humana, estarão também presentes, de alguma forma, a graça e a glória de Deus. Sabemos que a graça de Deus, como bênção que nos vem do alto, caminha pelas nossas ruas e cidades, corre pelos nossos campos e aldeias, bate às portas dos nossos lares e comunidades, penetrando em nossas vidas e renovando nossa espiritualidade e nossos propósitos. Por isso podemos dizer que, com certeza, estamos vivendo o "kairos da graça", e esperando a sua abundância.  
(Rev. Israel Batista, autor dessas reflexões finais, é cubano e secretário-geral do Conselho Latino-Americano de Igrejas - CLAI). Ele escreve em nome da Comissão Teológica Latino-Americana).

sábado, 18 de setembro de 2010

O caracter do ministério cristão.


O ministério nos dias de Paulo não era fácil de ser realizado. Leon Morris fez esta observação: "Talvez nunca houve tão grande variedade de cultos religiosos e sistemas de filosofia como nos dias de Paulo. O Leste e o Oeste se uniram e se mesclaram para produzir uma amálgama de piedade autêntica, princípios morais elevados, superstição grosseira e licenciosidade sórdida". Aquela época se assemelha aos nossos dias, não é verdade? "O sincero e o espúrio, o justo e o profano, os trapaceiros e os santos competiam e clamavam pela atenção dos crédulos e dos céticos."

Com base nesse contexto, podemos obter uma idéia sobre o caráter da liderança de Paulo. Em 1 Tessalonicenses 2, ele exortou os crentes a lembrarem-se do que sabiam a respeito dele — a natureza de seu ministério e de sua liderança. Paulo argumentou que sua eficácia se fundamentava na sua percepção da pessoa de Deus — e isso definia o caráter de seu ministério.

Primeiramente, Paulo confiava no poder de Deus (2.2), para lhe dar tenacidade. "Apesar de maltratados e ultrajados em Filipos, como é do vosso conhecimento, tivemos ousada confiança em nosso Deus, para vos anunciar o evangelho de Deus, em meio a muita luta." Isso é tenacidade. A persistência de Paulo estava alicerçada em sua confiança em Deus.

Apesar do ultraje e da degradação pública em Filipos, antes de chegar a Tessalônica, Paulo disse que tivera "ousada confiança em nosso Deus, para vos anunciar o evangelho de Deus, em meio a muita luta". Isso é o cerne, a alma do ministério! O objetivo do pregador nunca é minimizar o conflito que acompanha o evangelho, visto que este sempre é ofensivo.& A marca de um grande líder não é o modo como ele evita o conflito, e sim o modo corajoso como o aceita.

Em segundo, Paulo estava comprometido com a verdade de Deus. "A nossa exortação não procede de engano, nem de impureza, nem se baseia em dolo" (2.3). O ministério de Paulo era caracterizado por integridade. Impureza tem, freqüentemente, conotações sexuais. Muitos dos falsos mestres do mundo antigo eram, tal como o são os de nossos dias, marcados por uma vida secreta de pecado sexual repulsivo. Paulo não era um enganador ou um impostor. "Engano" é sinônimo de embuste. Ele não estava tentando ganhar pessoas em benefício de si mesmo, como o faziam os falsos mestres. Sua integridade estava vinculada à verdade — algo que ele não podia mudar nem abandonar.

Em terceiro, Paulo foi comissionado pela vontade de Deus. "Visto que fomos aprovados por Deus, a ponto de nos confiar ele o evangelho, assim falamos" (1 Ts 2.4a). Em outras palavras, ele entendia que sua autoridade viera de Deus, que lhe confiara a mordomia do evangelho. Paulo foi testado e aprovado por Deus (tempo presente, indicando um algo duradouro). Ele disse a Timóteo que ordenasse, ensinasse e repreendesse com toda a autoridade; disse a Tito que não se esquivasse disso. O pregador se caracteriza por sua autoridade quando prega o evangelho.

Em quarto, Paulo era compelido pela onisciência de Deus. A onisciência de Deus produziu responsabilidade. "Assim falamos, não para que agrademos a homens, e sim a Deus, que prova o nosso coração. A verdade é que nunca usamos de linguagem de bajulação, como sabeis, nem de intuitos gananciosos. Deus disto é testemunha" (2.4b-5). Sob a direta supervisão de Deus (2 Tm 4.1), o ministro que serve ao Senhor prestará contas a Ele, um dia (Hb 13.17). E o que acontecerá naquele tempo futuro de recompensas é determinado pelo irresistível senso de responsabilidade que mantemos dia após dia (1 Cr 28.9; Ap 2.23).

Talvez você esteja cercado de muitas pessoas às quais presta contas. Mas, se, em seu coração, você perde a batalha da prestação de contas para com Deus, nunca a ganhará na vida diária. A verdadeira batalha é travada no coração e na consciência.

Em quinto, Paulo era consumido pela glória de Deus (2.6), resultando em humildade. Não buscar a glória dos homens é bastante difícil. Como apóstolo de Cristo e alguém que estivera no céu, Paulo poderia ter exigido muitas honras. No entanto, sendo consumido pela glória de Deus, ele não tinha qualquer interesse em buscar glória dos homens.

Em sexto, Paulo era compassivo para com o povo de Deus (2.7-12). Uma das percepções do âmago do ministério de Paulo que mais nos enriquece é a simpatia do apóstolo. A mais terna e incansável expressão de amor é a de uma mãe para com seu bebê em amamentação — não há reciprocidade maior, intimidade maior, dependência maior. Se você tiver esse sentimento para com a sua igreja, ela suportará muito. Prive-os disso, e eles lutarão incansavelmente contra você. Em muitos casos, quando você começa a ministrar em uma igreja, tem de amamentá-los. Tem de ser paciente e compassivo, sabendo que o crescimento é um processo lento e, às vezes, doloroso.

Como pastor, você precisa anelar por que Cristo seja formado plenamente em seu povo. Há necessidade de paciência, ternura e afeição profunda. É uma tarefa interminável, que envolve noite e dia (2.9).

Paulo concluiu com a analogia de um pai (2.10-12). A parte da mãe é o amor, o cuidado, a ternura, a compaixão; a do pai é a coragem, o caráter moral, o exemplo, a exortação, a instrução. A mãe



John MacArhtur, autor de mais de 150 livros e conferencista internacional, é pastor da Grace Comunity Church, em Sum Valley, Califórnia, desde 1969; é presidente do Master’s College and Seminary e do ministério “Grace to You”; John e sua esposa Patrícia têm quatro filhos e quatorze netos.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O ESPÍRITO SANTO EM ATOS DOS APÓSTOLOS


Atos dos apóstolos, de início, registra que a obra de Jesus foi continuada pelo Espírito Santo, através dos apóstolos. Eles, no entanto, não predominam no livro de Atos, mas sim o Espírito Santo.

Jesus é o assunto principal nos “evangelhos” e, em comparação, pouco é dito sobre o Espírito Santo. Mas, em Atos, o Espírito Santo é o Consolador, Ajudador e Mestre. Tudo na vida e na pregação dos apóstolos e dos crentes primitivos se centralizava em Jesus como salvador vivo e Senhor exaltado. O desejo de estender o evangelho até os confins da terra era de cristão (1.8). Mas o poder para realizá-lo era do Espírito Santo. Provinha, não somente de sua experiência pentecostal inicial, mas da consciência diária da presença, da orientação e da comunhão do Espírito Santo e de muitas manifestações do seu poder.

Jesus preparou, através do Espírito Santo os apóstolos. Mas isso não significa que o Espírito não pudesse operar através de outras pessoas, ou que a direção da Igreja fosse entregue aos apóstolos. O Espírito Santo comandaria tudo, Ele usaria quem desejasse. Muitos discípulos levaram o evangelho por onde passavam; após a morte de Estevão, ao passo que os apóstolos permaneceram em Jerusalém (At 8.1,4; 11.19-21). Ananias foi enviado para impor as mãos sobre Saulo de Tarso (9.10,17). Tiago, irmão de Jesus que não era apóstolo, teve sua proposta aprovada no concílio de Jerusalém, e assumiu a direção da Igreja em Jerusalém, no decorrer do tempo (At 15.13; Gl 2.12).

O livro de Atos demonstra que os apóstolos foram as primeiras testemunhas da ressurreição e dos ensinos de Jesus.

As condições impostas para a seleção de um sucessor de Judas esclarecem isso, pois precisava ser um dos que costumeiramente reuniram com os doze e viajavam com eles durante o ministério terrestre de Jesus, de modo que pudesse ser testemunha dos ensinamentos de Cristo. Tinha também de ser testemunha da ressurreição e da doutrina que Jesus ensinou após esse evento (At 1.21-25). Paulo fala do seu apostolado, não pelo fato de ter sido enviado por Cristo, mas por ter sido testemunha, em primeira mão tanto da ressurreição como das palavras de Jesus. Ele não recebeu dos homens o Evangelho que pregava, mas do Senhor Jesus (Gl 1.11,12, 16-19; 2.2,9, 10). Na realidade, ele freqüentemente chamava a atenção ao fato de que podia provar o que dizia, citando declarações de Jesus (I Co 7.10).

Além disso, as visitas dos apóstolos não eram uma super visão ou uma sanção apostólica, mas um desejo de estabelecer igrejas.

Foi assim que Pedro e João ajudaram a Felipe (8.14). Mas não disseram o que ele deveria fazer em seguida. Primeiramente, um anjo e depois o Espírito Santo deu-lhe orientação (8.26,29). Quando alguns discípulos, cujos nomes não são mencionados, levaram o evangelho aos gentios em Antioquia, Barnabé foi enviado para ajudá-los. Ele também era apóstolo (14.14), mas a ênfase recai no fato de ser um homem bom e cheio do Espírito Santo, e não os apóstolos, quem dava a orientação. Por essa razão, temos razões justificáveis para nos referir a este livro como Atos do Espírito Santo.

Desde o princípio, percebe-se a preeminência do Espírito Santo. Não somente as últimas palavras de Jesus foram dadas mediante o Espírito Santo, mas também essas instruções tinham a ver com Ele.



PROMESSA DO PAI



Em seguida, Jesus mandou-lhes esperar a promessa do Pai, identificada como batismo no Espírito Santo. É assim chamada, porque foi Ele quem providenciou o derramamento prometido, conforme Jesus já lhes ensinara. Ele pediria ao Pai e este enviaria o Espírito Santo.

A ordem de Jesus, para que os discípulos não se ausentassem de Jerusalém, foi necessária somente para essa ocasião. Não havia mais necessidade de protelação, depois do dia de pentecostes. Mas o pentecostes, com seu simbolismo de colheita era importante no propósito do batismo no Espírito como poder para o serviço, especialmente nas searas deste mundo (1.8).

Foi um período de preparação? Alguns entendem assim. Mas a evidência é que a preparação foi feita durante os 40 dias, pelo próprio Jesus. Ele os ensinou, lidou com Pedro, renovou a comissão deles, e depois lhes ordenou que não iniciassem o ministério até que fossem revestidos de poder. Esse não era um empreendimento humano. Não deviam empregar sua própria engenhosidade para conquistar novas maneiras de difundir o evangelho. Deviam ser guiados pelo Espírito Santo que assumiria o comando.



VENTO E FOGO



Os sinais que antecederam o derramamento pentecostal fazem uma conexão entre ele e as experiências do Antigo Testamento, bem como as promessas daquela aliança. O dia de pentecostes era a festa da colheita dos frutos da terra. Para a igreja, marcava o dia em que a colheita espiritual, esperada há tanto tempo, começaria. Mas, antes de vir o derramamento do Espírito Santo, dois sinais incomuns estabeleceram maior relação com o simbolismo do Antigo Testamento. Primeiro vem do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso. Embora não houvesse vento físico, o som encheu a casa. No Antigo Testamento, o vento era um símbolo constante do Espírito Santo. O som de um vento impetuoso, de um vento que traz em si poder, sugere que era mais do que “o respirar do Espírito” na regeneração que traz a nova vida. Mais uma vez, trata-se do poder para o serviço.

Surgiram então, “línguas repartidas como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles”. A palavra “repartidas” significa “distribuídas”. Apareceu algo semelhante a uma grande chama sobre os discípulos. Em seguida, desfez-se, e repartiu-se em várias línguas que pousaram sobre as cabeças de cada um deles.

Um só sinal fazia parte do batismo pentecostal. Todos os que foram cheios do Espírito Santo começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concediam que falassem. Isso quer dizer que faziam uso das suas línguas, dos seus músculos. Falavam, mas as palavras não brotavam das suas mentes ou do seu pensamento. O Espírito Santo lhes concedia que falassem, e expressavam as palavras com ousadia, em voz alta, e com unção e poder. Os 120 falavam em idiomas que foram compreendidos por pessoas de diversas nações. Esse fato testemunhou a universidade do dom e da unidade da igreja.



A PROFECIA DE JOEL É CUMPRIDA



Depois de provar que os 120 não estavam embriagados, Pedro declarou que o que viam e ouviam (2.23) era o cumprimento de Joel 2.28-32. A promessa sobre o derramamento do Espírito Santo cumpria-se diante dos olhos deles. Filhas e Filhos de Israel profetizavam, cheios do Espírito Santo e falavam sob sua unção.

Desde o dia de Pentecostes, vemos o Espírito Santo operando na Igreja na igreja, no ensino, nos milagres, nas plenitudes, nos batismos, mas, acima de tudo, na disseminação do Evangelho e no estabelecimento da igreja.

A primeira evidência da obra do Espírito Santo foi à capacitação dos apóstolos a fazer discípulos. Esse discipulado foi de experiências: o conhecimento da doutrina dos apóstolos, comunhão, partir do pão e orações (At 2.42).

Parte dessas atividades realizava-se no templo, pois muitos crentes o freqüentavam diariamente (At 2.46), e os apóstolos lá compareciam todos os dias, ensinando e contando as boas novas de Cristos (3.1; 12.26; 5.42). Mas faziam a mesma coisa diariamente, de casa em casa (5.42).

Essa comunhão, essa união no Espírito, deu-lhes fé, amor e solicitude uns pelos outros, que os levava a compartilhar seus bens com os que precisavam.

A adoração, a comunhão com Deus, o partir do pão, o evangelismo e os milagres, todas essas coisas concretizavam uma experiência unificada no Espírito Santo.

Evidência marcante de supervisão na igreja pelo Espírito Santo era a concessão dos dons espirituais, com o propósito de satisfazer novas necessidades e de enfrentar novos desafios. O livro de Atos cita alguns exemplos destas bênçãos sobre indivíduos em particular, e sobre a coletividade. Por falta de espaço, Atos cita apenas alguns exemplos do que acontecia freqüentemente. A cura do coxo na porta formosa é uma amostra dos muitos sinais e maravilhas realizadas pelos apóstolos (At 2.43; 3.1-10).



MILAGRES EM ATOS DOS APÓSTOLOS



Os milagres ocupam parte evidente de Atos dos apóstolos.

• Atos começa com as aparições do Jesus ressurreto aos discípulos (1.3)

• Em seguida, diante dos olhos deles, Jesus sobe ao céu (1.9).

• No pentecostes, surge a primeira manifestação milagrosa e visível do Espírito Santo, nas línguas de fogo (2.3).

• Sinais e maravilhas são operados pelos apóstolos (2.43).

• A cura de um aleijado, à porta do templo (3.7-11), causa profunda impressão sobre toda a cidade (4.16,17).

• Deus responde à oração mediante um terremoto (4.31)

• Morrem Ananias e Safira (5.5-10).

• Continuam os sinais e maravilhas operados pelos apóstolos (5.12).

• Muitas pessoas das cidades vizinhas são curadas pela sombra de Pedro (5.15,16) – A narrativa é semelhante aos dias de Jesus na Galiléia.

• As portas de uma prisão são abertas por um anjo (5.19).

• Estevão realiza grandes sinais e maravilhas (6.8)

• Em seguida, Felipe operava grandes sinais e milagres (8.6,7,13), e muitas pessoas crêem.

• Saulo é convertido por uma voz direta do céu (9.3-9).

• Diante da palavra de Ananias “algo como escamas” caíram dos olhos de Saulo (9.17-18).

• Em Lida, Pedro cura Enéias, e a região inteira é convertida a Cristo (9.32-35).

• Em Jope, Pedro ressuscita Dorcas dentre os mortos, e muitos crêem no Senhor (9.40-42).

• Cornélio é convertido pelo aparecimento de um anjo e pelo falar em línguas (10.3,46).

• Uma voz da parte de Deus envia Pedro até Cornélio (10.9-22) e o milagre que se segue convence os judeus de que Pedro agiu corretamente (11.15,18).

• A porta de uma prisão abre-se por conta própria (12.10)

• A cegueira milagrosa de um mágico leva o procônsul de Chipre a crer (13.11,12).

• Paulo opera sinais e milagres em Icônio, e muitas pessoas crêem (14.3-4).Em Listra, a cura de um aleijado leva as multidões a pensar que Paulo é um deus (14.8-18).

• Em Filipos, Paulo cura uma adivinha, e um terremoto converte o carcereiro (16.16-34). Em Éfeso, 12 homens falam em línguas (19.6), e milagres extraordinários operados por Paulo (19.11,12). Levam a divulgação ampla da palavra do Senhor (19.20).

• Em Trôade, Paulo ressuscita dentre os mortos um jovem (20.8-12).

• Em Malta, a cura que Paulo recebe da picada de uma víbora (28.3-6). Leva os habitantes da Ilha a pensar que ele é um deus, e Paulo cura todos os enfermos entre eles (28.8,9).



Se tirássemos os milagres de Atos dos apóstolos, pouca coisa sobraria. É inegável que Deus fez uso abundante de milagres ao lançar o cristianismo no mundo.

A LIBERDADE CRISTÃ


A salvação em Cristo é libertação, e a vida crista é uma vida de liberdade- pois Cristo nos libertou (Gl 5.1; cf. Jo 8.32,36). A ação libertadora de Cristo não é basicamente de melhoramento social, político ou econômico, como hoje, as vezes, se sugere ; é a libertação do jugo da lei como meio de salvação; é a libertação do poder do pecado.

Primeiramente, o cristão é liberto da lei como sistema de salvação. Sendo justificado pela fé em Cristo, não esta mais sob a lei de Deus, mas sob a sua graça (Rm 3.19; 6.14-15; Gl 3.23-25). O seu status diante de Deus (a “paz” e o “acesso” de Rm 5.1-2)é assegurado porque ele foi aceito e adotado em Cristo.Não depende e jamais dependera daquilo que faz, e nem jamais estará em perigo por aquilo que deixar de fazer. Ele vive não porque é perfeito mas porque é perdoado.

Embora sejam decaídos, os seres humanos pensam poder ganhar um relacionamento correto com Deus, mediante disciplinas de obediência, de rituais e ascetismo. Sem a justiça de Deus, eles procuram “estabelecera sua própria”- como Paulo descreve os Judeus (Rm 10.3). Paulo sabia que esse é um empreendimento sem esperança. Nenhum desempenho humano jamais será bom o suficiente, e há sempre desejos errados no coração, não importando quão corretas sejam as ações exteriores (Rm 7.7-11; cf. Fp 3.6). Deus olha primeiro para o coração.

Longe de abrir o caminho para a vida, a obra da lei é despertar, desmascarar e condenar o pecador que permeia nessa vida moral, fazendo-nos cientes de sua realidade e conseqüência (Rm 3,19; 1Co 15.56; Gl 3.10). A futilidade de considerar a lei como sistema de salvação e de procurar justiça por meio dela torna-se plenamente evidente (Gl 3.10-12; 4.21-31). Essa futilidade é a escravidão à lei, da qual Cristo nos liberta.

Em segundo lugar, os cristãos foram libertos do domínio do pecado (Jo 8.34-36; Rm 6.14-23). Foram sobrenaturalmente e vivificados para Deus, através de sua união com Cristo na sua morte e na sua vida ressurreta (Rm 6.3-11). O desejo de seu coração agora é servir a Deus em justiça (Rm 6.18,22). O dominio do pecado envolve não só constantes atos de desobediência, mas também constante menosprezo da lei moral de Deus, criando, as vezes, ressentimentos ou, mesmo, ódio para com a lei. Agora, contudo, sendo transformados no coração, sendo motivados pelo sentimento de gratidão pelo dom da graça e energizados pelo Espírito Santo, os cristãos servem “em novidade de espírito e não na caducidade da letra” (Rm 7.6).